Resposta ao Miguel Panão – Interpretação literal ou contextual?

Uma das pessoas que tem estado activa no blog do Ludwig é o Carlos Panão. Tal como o Ludwig, as credencias do Miguel no que toca à ciência operacional são impecáveis. O problema começa quando se começa a falar sobre o passado remoto, onde as crenças pessoais são um factor determinante.

O Miguel é um evolucionista, e como tal a sua interpretação do passado é feita de forma a manter o paradigma evolucionista. Uma das consequências da adopção da cosmovisão naturalista é a reinterpretação da Bíblia. Porquê? Porque uma leitura contextual e harmoniosa da Palavra de Deus refuta qualquer crença de que o processo evolutivo é o método através do qual o Senhor Jesus criou o universo.

No seu post com o título de “Em torno dos milagres“, o Miguel respondeu a algumas coisas que eu tinha comentado no seu blog. Ele afirma:

Quem estuda a Bíblia e faz, nomeadamente, a exegése do Génesis, não faz uma interpretação literal.

Discordo desta posição. Existem imensos estudiosos da Bíblia que afirmam que a interpretação criacionista é a que melhor leva em conta o contexto. Por exemplo, temos as palavras de professores de hebraico que confirmam a interpretação criacionista do Livro de Génesis:

‘… probably, so far as I know, there is no professor of Hebrew or Old Testament at any world-class university who does not believe that the writer(s) of Genesis 1–11 intended to convey to their readers the ideas that:

  1. Creation took place in a series of six days which were the same as the days of 24 hours we now experience
  2. The figures contained in the Genesis genealogies provided by simple addition a chronology from the beginning of the world up to later stages in the biblical story
  3. Noah’s flood was understood to be world-wide and extinguish all human and animal life except for those in the ark.’ James Barr, Oriel Professor of the interpretation of the Holy Scripture, Oxford University, England, in a letter to David C.C. Watson, 23 April 1984.
Por outras palavras, levando em conta a gramática, a lógica interna e o contexto, a interpretação criacionista é a que está de acordo com o Texto Sagrado.O Miguel continua,

Aliás, ainda há pouco tempo vi um episódio da BBC (Did Darwin kill God) onde o não fazer uma interpretação literal da Escritura é algo que vem da Tradição e dos Padres da Igreja.

Primeiro é preciso vêr a origem desta “informação”. A BBC é conhecida universalmente por ser tudo menos amiga da Verdade Bíblica. Eles mesmo assumem que eles têm um “bias” contra os cristãos:

It was the day that a host of BBC executives and star presenters admitted what critics have been telling them for years: the BBC is dominated by trendy, Left-leaning liberals who are biased against Christianity and in favour of multiculturalism.

Não é de admirar que esta organização anti-cristã promova filosofias que vão contra o que Deus diz na Biíblia.Outro ponto importante é o de que, contrariamente ao que o Miguel afirma, a história do cristianismo está de acordo com o criacionismo. Pode-se lêr neste site a crença que os católicos sempre tiveram sobre as nossas origens.

Como se isso não fosse suficiente, a história do cristianismo não-católico confirma a crença criacionista como sendo a ortodoxa:

Por exemplo, Calvino diz:

1. A Terra é jovem:

“They will not refrain from guffaws when they are informed that but little more than five thousand years have passed since the creation of the universe.” (http://creationontheweb.com/content/view/236/#r4)

2. Deus criou em seis dias:

“Here the error of those is manifestly refuted, who maintain that the world was made in a moment. For it is too violent a cavil to contend that Moses distributes the work which God perfected at once into six days, for the mere purpose of conveying instruction. Let us rather conclude that God himself took the space of six days, for the purpose of accommodating his works to the capacity of men. (http://creationontheweb.com/content/view/236/#r5)

3. Adão e Eva são figuras históricas, e não alegóricas:

“[Moses] distinguishes between our first parents and the rest of mankind, because God had brought them into life by a singular method, whereas others had sprung from previous stock, and had been born of parents.” (http://creationontheweb.com/content/view/236/#r11)

O que Calvino disse sobre a criação, a origem do pecado e o dilúvio pode ser visto neste site. O mesmo pode ser dito de Basil e de qualquer outro líder cristão durante os primeiros 19 séculos do cristianismo. Aliás, Basil disse uma coisa que deveria fazer pensar todos aqueles que se chamam de “cristãos” mas estão debaixo do feitiço darwinista:

‘Avoid the nonsense of those arrogant philosophers who do not blush to liken their soul to that of a dog; who say that they have been formerly themselves women, shrubs, fish. Have they ever been fish? I do not know; but I do not fear to affirm that in their writings they show less sense than fish.’ (Homily VIII:2)

Impressionante como as palavras de Basil continuam tão actuais, principalmente se levarmos em conta o que a teoria da evolução diz sobre o imaginado passado aquático do homem.Seguidamente o Miguel oferece-nos uma citação de Santo Agostinho:

(…) Em Santo Agostinho encontramos algo como

«Contudo, é demasiado vergonhoso e ruinoso, e deve ser grandemente evitado, que ele [o não-Cristão] ouça um Cristão falar de tal forma idiota sobre estas matérias, como se estivessem de acordo com as escrituras Cristãs, que mal possa conter o riso quando viu como estão totalmente errados.»

O Miguel não disse quais eram as matérias que Agostinho tinha em mente, mas podemos estar certos de uma coisa: Agostinho, tal como a maioria da igreja cristã, não acreditava que o universo e a biosfera eram o resultado de forças aleatórias, mas sim o resultado de Design Inteligente. Agostinho afirmou ainda:

“They [pagans] are deceived, too, by those highly mendacious documents which profess to give the history of [man as] many thousands of years, though reckoning by the sacred writings we find that not 6,000 years have yet passed” (The City of God 12:10 – [A.D. 419]).

Não só a igreja cristã recusava-se a aceitar mitos ateus de que o universo tinha muitos milhares de anos, como também afirmava essencialmente aquilo que os criacionistas mordernos afirmam. Longe de ser uma interpretação “nova” ou “desconhecida”, a interpretação criacionista do Livro de Génesis é a interpretação que a igreja cristã sempre teve como a oficial. A posição que o Miguel defende é que a novidade.

Por exemplo, publiquei neste blog um post sobre Adão e Eva que exprime, segundo uma leitura exegética, o tipo de interpretação correcta, de acordo com a Tradição e não criacionista.

Como se pode ver pelas referências e citações fornecidas em cima, a interpretação correcta é a interpretação que a igreja sempre teve. O Miguel é que está fora da história cristã.

About Mats

"Posterity will serve Him; future generations will be told about the Lord" (Psalm 22:30)
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4 Responses to Resposta ao Miguel Panão – Interpretação literal ou contextual?

  1. Em primeiro lugar gostaria de agradecer o interesse naquilo que escrevi e a resposta que o Mats procura dar-me.

    Por mais que se afirme que estou “fora da história cristã”, não quer dizer que isso seja verdade. O literalismo bíblico é tão aplicado por criacionistas como pelos ateus que os criticam, e quando referi o programa da BBC, foi moderado por um filósofo e teólogo cristão irlandês (Connor Cunningham), logo, alguém que sabe (certamente) mais do que nós sobre o assunto porque o estudou.

    Por fim, saliento o que disse o Cardeal Patriarca Dom José.
    “A narração bíblica da Criação foi, assim, radicalmente posta em questão. Mas tanto os darwinistas como a maneira católica de lhe responder, partiram de uma leitura do texto bíblico, não querida pelo seu autor nem legitimada pela comunidade para quem foi escrito. É um texto simbólico, num género literário hoje conhecido e estudado; é uma revelação do sentido profundo da criação e da vida e não a narração do modo como as coisas aconteceram, perspectiva própria da ciência. O Deus da narração do Génesis não é um deus artífice, fazedor do cosmos, arquitecto supremo que planeia e executa um projecto.”

    E ainda:
    “Responder a Darwin a partir de uma leitura do texto do Génesis, interpretado como descrição factual do modo como as coisas aconteceram, é confirmar a leitura que ele fez do texto bíblico. Enfermaram dessa deficiente leitura, não só muitas respostas da teologia católica ao longo destes 150 anos, mas também muitos dos actuais movimentos chamados criacionistas.”

    Com isto, espero ter suscitado um momento de auto-reflexão …

    Cordiais saudações,
    Miguel Panão

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  2. Mats says:

    Miguel,
    Obrigado pelas palavras, e agradeço teres tirado tempo para comentar aquilo que escrevi.

    Em relação ao que disseste neste comentário, isto foi essencialmente o mesmo que já tinhas dito no teu blog. A minha resposta teve dois objectivos:
    1. Mostrar que a posição criacionista está de acordo com a gramática de Génesis
    2. Mostrar que a dita posição criacionista está de acordo com a história cristã.

    O Dom José tem todo o direito de dizer o que ele pensa, mas é preciso vêr que o que ele diz está em desacordo com aquilo que a sua própria igreja católice sempre defendeu

    Por exemplo:

    * God created everything “in its whole substance” from nothing (ex nihilo) in the beginning. (Lateran IV; Vatican Council I)

    * Genesis does not contain purified myths. (Pontifical Biblical Commission 1909[1])

    * Genesis contains real history—it gives an account of things that really happened. (Pius XII)

    Estes e outros exemplos mostram que a igreja católica sempre defendeu a posição criacionista.
    Agora, tu podes dizer “Mas a ciência obriga-nos a reinterpretar Génesis”. Isto é debatível, mas o ponto fulcral que quero mostrar é que a posição cracionista sempre foi a posição ortodoxa da igreje do Senhor Jesus Cristo. Os evolucionistas é que trouxeram “outro evangelho” (Gal 1:7-8).

    Paz de Deus, Miguel.

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  3. mpanao says:

    Caro Mats,

    “a igreja católica sempre defendeu a posição criacionista”.

    Se assim fosse porque terá sido necessário o número 12 na Dei Verbum nos documentos conciliares?

    Se assim fosse, não seria isso explícito na “catequese sobre a criação” (282-289) no Catecismo da Igreja Católica?

    Abraço fraterno …
    Miguel

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  4. ola meu caro amigo ja algum tp lei sobre vc me chamo carlos panao filho de portugues de sou engenheiro eletrico muito me identifiquei com voce queria te fazer algumas perguntas sobre nossa familia [panao] abraçao me add no msn panaocarlos@hotmail.com

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