Olavo: “Os Quatro Burros do Apocalipse”

É provável que o título do post não reflicta o título original do Olavo de Carvalho. Mas evolutivamente falando, cavalos e burros são primos afastados, por isso os evolucionistas não se devem importar. Ou devem?

Quando quatro livros de autores famosos são publicados quase ao mesmo tempo, defendendo opiniões substancialmente idênticas por meio da mesma técnica argumentativa, é óbvio que não estamos diante de um festival de coincidências, mas de uma campanha destinada a prosseguir por meios cada vez mais abrangentes e a alcançar resultados bem mais substantivos do que o frisson publicitário de um momento.Se, ademais, esse esforço vem junto com medidas legais tomadas em vários países para dar imediata realização prática ao mesmo objetivo que os livros propõem como ideal e desejável — expelir a religião da vida pública –, então é claro que o intuito dessas obras não é colocar nada em discussão, não é nem mesmo persuadir, é apenas legitimar a imposição de poder mediante uma camuflagem de debate público.

As contribuições pessoais dos srs. Sam Harris, Richard Dawkins, Daniel Dennett e Christopher Hitchens à guerra anticristã mundial destacam-se pela uniformidade com que apelam a uma técnica argumentativa inusitada, raríssima, tão contrastante com o seu prestígio, que a probabilidade de ter ocorrido espontaneamente aos quatro é de um infinitesimal tendente a zero.

Chego a me perguntar se esses livros foram realmente escritos por seus autores nominais, se estes não se limitaram a dar acabamento a rascunhos preparados por algum engenheiro comportamental.

Esse modus argüendi , já conhecido dos antigos retóricos mas quase nunca usado em debates intelectuais, consiste em apresentar com ares de seriedade, e com o respaldo de uma credibilidade pessoal prévia, argumentos propositadamente indignos dela: vulgares, grosseiros e fundados numa ignorância monstruosa das complexidades do assunto.

À primeira vista o adversário (por exemplo Michael Novak na National Review de maio) imagina que os quatro ficaram loucos, que, arrebatados pelo ódio, abdicaram de toda sofisticação intelectual e resolveram dar a cara a tapa.

Mas o tapa não os atinge. A técnica que empregam não se usa para vencer uma discussão, e sim para impossibilitá-la. Nenhuma discussão é viável sem a posse comum de um corpo de conhecimentos fundamentais sobre a matéria em debate. Se um dos lados se furta propositadamente a tratar do assunto no nível intelectual requerido, o interlocutor sério não tem alternativa senão explicar tudo desde o princípio, alongando-se em sutilezas que darão a penosa impressão de embromações pedantes e que o auditório, fundado na confiança usual que tem na autoridade do outro lado, muito provavelmente se recusará a ouvir.

William Hazlitt, num ensaio clássico, já falava das “desvantagens da superioridade intelectual”, mas não previu que elas se tornariam ainda maiores no confronto com a ignorância planejada. Nem mesmo os maiores trapaceiros ideológicos do século XX, um Sartre ou um Chomsky, se rebaixaram ao ponto de apelar a esse expediente e fazer da burrice uma ciência, como temia o nosso Ruy Barbosa. A vida intelectual no mundo teve de perder o último vestígio de dignidade para que pudessem aparecer, no horizonte dos debates letrados, os quatro cavalos do Apocalipse.

About Mats

"Posterity will serve Him; future generations will be told about the Lord" (Psalm 22:30)
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4 Responses to Olavo: “Os Quatro Burros do Apocalipse”

  1. Nuno Dias says:

    Mas o tapa não os atinge.
    vamos começar…
    A técnica que empregam não se usa para vencer uma discussão, e sim para impossibilitá-la.
    a parte da vitimização
    Nenhuma discussão é viável sem a posse comum de um corpo de conhecimentos fundamentais sobre a matéria em debate.
    a parte de não haver discussão filosófica empregando argumentos místicos.
    Se um dos lados se furta propositadamente a tratar do assunto no nível intelectual requerido,
    a parte da acusação
    o interlocutor sério não tem alternativa senão explicar tudo desde o princípio,
    a parte da acusação insultuosa
    alongando-se em sutilezas que darão a penosa impressão de embromações pedantes e que o auditório, fundado na confiança usual que tem na autoridade do outro lado, muito provavelmente se recusará a ouvir.
    a parte de “porque não ouvem as minhas tretas?”

    Conclusão:
    Em Londres 10% das pessoas estavam para se opor ao Papa. É muita gente errada.
    Não distribuimos panfletos, não fazemos reuniões semanais, não espalhamos o medo. Somos bons! 😀

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  2. Mats says:

    Nuno Dias,

    Se vocês só conseguem convencer 10% da população mesmo estando na posse dos órgãos de informação, das universidades, da política, da maioria dos músicos, da maioria dos cientistas, dos museus, das escolas secundárias e tudo o mais, então não são assim tão bons. 😉

    SE calhar a vossa mensagem não agrada à maioria da população. Será?

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  3. Mats:

    No fundo há duas posições distintas:

    Há quem pense que existe uma entidade não humana responsável pela criação do universo e que de alguma forma interfere no mesmo universo.
    Vamos por razões práticas ignorar as suas qualidades (eternidade, omnisciência, etc). Temos de começar pelo principio.

    Há por outro lado que tenha muitas dúvidas que tal entidade exista ou mesmo uma grande certeza da sua existência.

    Como podemos tentar saber qual das duas posições parece mais provável ?

    Podemos tentar a observação directa ou a observação de efeitos.

    Será bastante consensual que a observação directa será bastante improvável.

    Vamos portanto tentar encontrar um efeito cuja causa seja melhor explicado pela existência duma inteligência não humana.

    Os melhores candidatos serão a própria existência do universo e o aparecimento da vida com informação codificada que pode sugerir uma intencionalidade.

    No entanto isto leva-nos no máximo a esta conclusão:

    A existência de informação codificada no ADN parece sugerir a existência de algum tipo de inteligência não humana que tenha dado inicio ao processo. No entanto, à falta de mais indícios, não é possível conhecer mais nada desta entidade, se ainda existe ou se teve mais alguma influência no universo.

    Repara que isto é muito pouco. O método Aristotélico de chegar a conclusões sem fazer um cruzamento com dados observáveis tem o seu mérito mas em termos de conhecimento limita-nos bastante.

    Concluir depois desta primeira premissa ( que até é condicional) que essa entidade é una, trina, eterna, boa, má, ainda existe é uma interessante especulação intelectual. Não passa disso porque nem sabemos se a primeira premissa é verdadeira e não temos mais qualquer contacto ou efeito mensurável da entidade.

    Definir à partida a entidade como omnisciente, omnipotente ou atribuir-lhe outra qualidade qualquer não introduz mais informação relevante.

    Repara isto é como a questão da vida inteligente extra-terrestre. Podemos efabular um sociologia duma sociedade inteligente não humana. O avatar até um exercício engraçado.

    Até há boas razões lógicas para existirem outras civilizações (milhões de planetas como o nosso, alguns que podem ser parecidos com o nosso, etc)

    Não há é evidências que eles existam. Portanto até mais evidências nem sequer existem quanto mais atribuir-lhes característica (tem uma sociedade mais justa que nós, são bons, maus, etc)

    Repara que atribuir a uma entidade inteligente não humana características: é eterno, infinitamente bom, omnisciente, é pessoal, preocupa-se connosco, etc. é no mínimo prematuro.

    E quanto a informação proveniente dessa entidade não parece haver nada de relevante. Viste na discussão no Ktreta que mesmo que se parta do principio que a bíblia é uma via de comunicação com essa entidade não há maneira de haver uma maneira de interpretar o que lá está escrito.

    Repara que eu não afirmo que Deus como tu o defines ou os católicos não exista.

    Tenho é muitas dúvidas e muito mais ainda de tenha alguma vez comunicado connosco.

    Não se trata de má vontade ou preconceito. Parece-me, para ser franco, altamente improvável que exista ou tenha existido. E muito menos que comunique ou interfira de alguma maneira.

    Claro que não sabemos o que o futuro nos reserva e até é possível que um dia se venha a demonstrar a sua existência, a observar efeitos e comunicar
    com ele.

    Depois da mecânica quântica já nada me parece estranho ou impossível!

    A ver vamos, como diria o céguinho.

    Abraços e rói-te de inveja: o inverno e o frio vão começar aí e aqui o tempo está a aquecer….rsrsrsr

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