Ludwig Krippahl e a migração evolutiva

Há uns dias atrás foi colocado no blog Darwinismo um artigo que demonstrava como a teoria da evolução contradiz o que a ciência mostra. Essencialmente o texto diz que a espécie este-siberiana da Golden Plover (Pluvialis dominica fulva) migra do Alasca para o Hawai numa viagem de mais de 4.000 quilómetros que requer um batimento de asas constante durante cerca de 88 horas uma vez que não há ilhas entre Alasca e o Hawai.

Esta viagem requer que a Pluvialis dominica saiba desde a primeira vez que tenta voar 4 coisas importantes: 1) quanto alimento consumir, 2) quão depressa voar, 3) para onde voar e 4) como fazer o melhor uso das reservas energéticas (voando em V). Se o pássaro não souber isto antes de fazer a primeira viagem, ele morre durante a viagem e não deixa descendentes.

O ateu evolucionista Ludwig Krippahl, no entanto, tem uma explicação naturalista que nos deixa com sensação de que algo falta à “estória”.

A explicação naturalista para a migração é bastante óbvia. Basta ver que as populações migratórias migram para sobreviver, para escapar à falta de alimento, predadores ou temperaturas extremas. 

Infelizmente o Ludwig não leu o texto com a devida atenção uma vez que o mesmo afirma que “não há “pressão selectiva” a empurrar a ave para fora do Alasca uma vez que há muito que comer por lá.

A selecção natural encarregou-se de eliminar os pássaros que optassem por morrer de fome ou frio em vez de voar para outro lado.

A selecção natural elimina os que não levam em conta os 4 pontos descritos em cima, mas este não é o foco do post. O que o post quer saber não é porque é que aqueles que não seguem os 4 pontos morrem, mas sim como é que os pássaros souberam que era preciso ter isso em conta.

A “explicação” do Ludwig é a mesma coisa que dizer “os motards que não usam capacete morrem mais do que aqueles que não usam capacet”. Provavelmente. Mas o que se quer saber não é a razão que leva ao que não usam capacete a morrer com mais frequência, mas sim como é que usar capacete surgiu.

A “resposta” do Ludwig é uma subtil tentativa de desviar o foco do post para outras áreas.

E se é preciso voar em V, então aqueles que teimassem voar noutra letra deixariam menos descendentes. 

Ou seja, se é preciso usar capacete, então aqueles que não usassem o capacete tornavam-se menos na população de motards. Mas isto não nos diz nada sobre como surgiu o uso do capacete. Semelhantemente, o facto dos pássaros que voam de outra forma não sobreviverem não nos diz como é que este pássaro “descobriu” que voar em V poupa energia.

De resto, não é difícil descobrir esta formação porque, mesmo sem licenciatura em aerodinâmica ou teologia aplicada, os pássaros sentem que lhes custa menos voar quando se põem atrás da ponta da asa do pássaro à sua frente. 

Sim, dentro do naturalismo nunca é difícil descobrir coisas como voar em formação V – mesmo que estejamos a falar de pássaros. No naturalismo as coisas são muito “simples” de explicar porque não é preciso levar em conta o que a ciência diz.

Mesmo que “não fosse difícil” descobrir que voar em V reduz o consumo de energia (coisa que o Ludwig não evidencia mas assume) isso não nos diz como é que o pássaro em questão assumiu que isso seria suficiente para percorrer mais de 4000 km. É preciso levar em conta que este sistema tem que funcionar à primeira e não após “tentativas” uma vez que se o mesmo falha, o pássaro morre em alto mar. Isso é uma coisa que os naturalistas não se apercebem.

E esta alegação sugere haver outro tipo de explicação. Curioso para saber que explicação seria essa, pedi ao Mats que elucidasse o mecanismo pelo qual terão surgido estas características e perguntei se os pássaros do seu exemplo já migravam 4000km no paraíso. Mas o Mats ignorou esta pergunta e disse não saber quais são os mecanismos. A sua explicação também não adiantou nada: «Por design inteligente sobrenatural.»(2) 

A pergunta “os pássaros já migravam 4000km no Paraíso” foi ignorada porque é irrelevante. Só porque os pássaros tem uma capacidade hoje isso não quer dizer que já a exercitavam no Paraíso.

O problema disto é que diz o mesmo que se fosse “por vontade do Elvis” ou “pelo poder de Grayskull”. 

Por acaso não. Uma explicação é algo que nos permite prever o futuro e justificar o porquê de podermos prever o futuro. A explicação “Deus criou os sistema de migração dos pássaros” é uma explicação plausível e distinta das outras porque permite-nos fazer previsões e justificar as previsões. As respostas “pelo poder de Grayskull”, ou “pela vontade de Elvis” ou “devido a mutações aleatórias e selecção natural” não são capazes de fazer o mesmo.

Sendo impossíveis de testar, não se inferindo delas nada acerca do que se observa, não se justifica escolher uma em detrimento das outras. 

Por acaso é possível testar a inferência para o design inteligente. Por exemplo, nós sabemos segundo a nossa experiência própria que informação codificada tem apenas uma causa: design inteligente. Uma vez que encontramos informação codificada na migração (e dentro dos pássaros), podemos cientificamente inferir que o aparato tem Uma Causa Inteligente. Para refutar esta inferência, basta que o naturalista encontrasse um único sistema informacional cujas origens tenham sido observadas que não tenha uma causa inteligente.

Até hoje, nenhum naturalista foi capaz de o fazer.

E a única coisa que o Mats diz saber é que o pássaro migra 4000km porque foi desenhado para isso por um ser inteligente, justificando-se com esta analogia: 

«Não sei quais foram os “mecanismos” que Deus usou, nem sei quais os “mecanismos” que os programadores do WordPress usaram para criar este serviço. No entanto, embora eu não saiba os mecanismos, isso não me impossibilita de verificar que tanto os pássaros como o WordPress tem causas inteligentes.»

No entanto, o Mats sabe usar um teclado, a menos que escreva os textos pelo poder da oração. E basta ler os ficheiros php do WordPress para ver exactamente o que os programadores escreveram.

Apesar de eu saber usar o teclado, isso não anula o facto de eu não saber como é que os programadores do WordPress criaram o software. Além disso, usando a lógica do naturalista Ludwig, “basta lêr o código genético dos pássaros” para ver exactamente o que Deus escreveu.

Portanto, a analogia que eu usei é válida e contextual. O facto de não sabermos os mecanismos usados para se criar um sistema de informação (ADN ou WordPress) não invalida a nossa capacidade de sabermos que um dito sistema é o resultado de programação e inteligência.

Mesmo que não seja programador, o Mats conhece algo do mecanismo pelo qual o WordPress foi criado. 

Por acaso não conheço. Não sei qual foi a linguagem usada, não sei qual a ordem de programação, não sei quais as partes que surgiram primeiro, e nem sei quem foram os programadores. Mesmo assim, tanto eu como o ateu mais militante pode ver que o WordPress é o resultado de design inteligente.

Quando chegamos à Biologia temos exactamente o mesmo tipo de evidências: temos o código genético, as estruturas interdependentes, a funcionalidade e o propósito das estruturas e muitas outras coisas que nos levam cientificamente para o Design Inteligente.

Além disso, o Mats percebe o propósito das características do WordPress. 

Eu também percebo até certo ponto o propósito das características dos pássaros e de outros animais.Sei o porquê dos pássaros terem um pulmão de um só sentido e não como o dos outros vertebrados. Sei o porquê dos pássaros terem ossos leves e sei muitas outras coisas que todos nós também sabemos. Não só sabemos mas podemos ver o seu propósito. Portanto, como percebemos o propósito dessas características biológicas, então segundo o critério do Ludwig temos que inferir design inteligente.

Por exemplo, percebe que o botão “Publish” foi criado com o propósito de publicar o texto. É por isso que o Mats consegue verificar a hipótese da criação inteligente do WordPress. Porque a assume nessa hipótese algo acerca de como foi criado e para que fim.

O que não falta na biosfera são estruturas criadas com um fim. Se esse é o teu argumento, então tens que mudar de lado ideológico e passar a ser um criacionista.

São estes aspectos da hipótese que servem para distinguir entre o que tem origem natural e o que surge por artifício. 

Exactamente. Se isto é assim, porque é que o Ludwig não aceita que as formas de vida (com o seu propósito, as suas estruturas com um fim) são o resultado de Design Inteligente? Ou será o seu ateísmo a moldar a sua avaliação das evidências? Qualquer coisa que aponte para Deus tem que ser justificado de outra forma sob pena de destruir o naturalismo.

Sei que o desenho de um floco de neve tem origem inteligente mas que o floco de neve surge por processos naturais porque tenho uma ideia de como se pode fazer um desenho, e do seu propósito, e uma noção de como a água congela sem qualquer propósito. 

Mas as estruturas biológicas assemelham-se mais aos desenhos do que aos flocos de neve, portanto, uma mente verdadeiramente científica não terá dificuldade em ver design no mundo natural. Mas uma mente naturalista já vai ter mais problemas.

Se vejo um xamã a dançar e pedir chuva percebo a intenção mas, sem indícios de um mecanismo pelo qual a dança faça chover, mesmo que eventualmente chova não vou concluir que foi por causa dele. 

Mas a falta de conhecimento dum mecanismo inteligente não invalida que se possa discernir que há de facto uma (ou mais) mentes por trás do dito mecanismo. Eu usei o mecanismo do WordPress mas qualquer outra coisa pode ser usada. Quantos de nós sabe quais os mecanismos usados para se criar sistemas auditivos? Mas qual de nós terá dificuldade em ver que os ditos sistemas tem causas inteligentes?

O argumento do Ludwig de que “se não se sabe o mecanismo, então não se pode dizer que teve origem inteligente” é claramente falso uma vez que há muitas coisas na nossa existência cujos mecanismos nós desconhecemos mas que todos nós sabemos terem uma causa inteligente.

Este requerimento arbitrário não científico do Ludwig é apenas mais uma forma de justificar a sua fé no naturalismo.

Com a desculpa do sobrenatural, a hipótese do Mats não esclarece o mecanismo da alegada criação inteligente. 

Nem precisava. A inferência para o design é independente do conhecimento dos mecanismos que trouxeram à existência um dito sistema. Para se inferir o design basta observar a forma como uma estrutura funciona e opera. Saber as etapas da criação pode ser intelectualmente satisfatório mas é cientificamente irrelevante como base para se inferir o design (veja-se o exemplo do WordPress e dos aparelhos auditivos).

Além disso, a criação inteligente implica um propósito, e o Mats também não explica porque é que o seu deus obrigou o pássaro a migrar 4000km duas vezes por ano. 

Deus criou os pássaros com a possibilidade e o conhecimento instintivo para voar grandes distâncias para garantir a sobrevivência das mesmas.

A Vida na Terra foi criada com os seguintes propósitos:

  • Sobrevivência
  • Mostrar que tem o Mesmo Criador.
  • Refutar qualquer teoria naturalista sobre a sua origem.

Segundo esta visão, a migração cumpre todas elas.

Em contraste, a selecção natural esclarece a evolução desse comportamento por um mecanismo que dispensa inteligência ou propósito. 

Mas a selecção natural apenas elimina quem não consiga migrar; não explica como é que a migração surgiu.

E é uma hipótese que podemos testar, constatando que os pássaros migram naquelas circunstâncias em que a migração é necessária à sua sobrevivência. 

Explicar que a migração é necessária para a sobrevivência não explica como é que a migração veio a existir. A respiração é necessária à sobrevivência humana, mas o facto de ser necessária não explica como é que surgiu.

Conclusão:

A tentativa do Ludwig de oferecer uma explicação naturalista falhou por completo. Ele não foi capaz de explicar a necessidade de voar 4000 km, não foi capaz de explicar como é que o pássaro aprendeu princípios de aerodinâmica, não foi capaz de explicar como é que o pássaro aprendeu o plano de vôo, e – mais importante – não disse como é que algo que se aprende pode passar para a descendência seguinte.

O instinto é uma entidade imaterial (não-física) portanto, será interessante saber como é que o Ludwig explica por meios físicos a origem de entidade não-físicas.

A inferência científica para o design é a que melhor de adapta aos dados observáveis. Sistemas de informação são sempre o resultado de design inteligente. Propósitos funcionais e operacionais apontam para causas conscientes e inteligentes – como concordou o Ludwig.

Se isto é assim, porque é que o Ludwig não admite que o seu naturalismo é falso e que Deus é a Explicação mais Plausível? Ora, ele não faz isso porque ele está em rebelião contra Deus. Quando nós estamos nesse estado de espírito não há nada que nos possa fazer ver a operação de Deus na nossa vida.

O Ludwig e os militantes ateus (neoateus) são apenas a face mais radical e visível da rebelião contra Deus, mas todos nós temos áreas da nossa vida onde sabemos que precisamos de deixar de lutar contra o que Deus nos diz. Quer seja nos nossos relacionamentos familiares, ou relacionamentos na igreja ou mesmo em coisas bem mais pessoais (falta de paciência, agressividade, etc), todos nós temos que deixar Deus ser Deus e nós as criaturas.

Que o maravilho design presente nos pássaros migratórios coloque em nós um coração humilde perante o Criador, mas ao mesmo tempo, confiante que Aquele que criou tal sistema de forma tão engenhosa pode cumprir com o que prometeu.

 


 

Este post é dedicado ao biólogo lagartão (sportinguista) Artur, membro do ginásio Transformer em Paço de Arcos e ávido consumidor do blog do Ludwig Krippahl. Graças aos post do Ludwig, temos tido grandes debates no meio do ginásio!

 

 

About Mats

"Posterity will serve Him; future generations will be told about the Lord" (Psalm 22:30)
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